ESPAÇO ABERTO DE INVESTIGAÇÃO DA DIREÇÃO TEATRAL
ESBOÇO DE PLANEJAMENTO ARTÍSTICO-PEDAGÓGICO
A. Justificativa:
A prática da direção teatral neste projeto é entendida como pesquisa coletiva, que envolve tanto o arte-educador quanto seus alunos, e tem como objetivo investigar a direção teatral artística e pedagogicamente. Consideramos que educar a partir do teatro significa fazer com que sejamos ao mesmo tempo atuantes e observadores. Ao realizar ações que são submetidas à sua própria observação, o aprendizado efetivo se realiza mediante a relação íntima entre teoria e prática.
Em decorrência, este projeto tem como objetivo fazer com que seus participantes, de forma estética, reflitam e atuem criativamente sobre conteúdos relacionados à sua própria realidade. Reflexão entendida aqui como retomar o próprio pensamento, pensar o já pensado, voltar para si mesmo e colocar em questão o que já se conhece.
Ao contrário da tradicional utilização do teatro que visa prioritariamente à apresentação de um espetáculo, o trabalho pedagógico tem como característica central um processo de aprendizagem estético–política, baseado na participação e na observação de situações criadas pelos próprios alunos, estímulos para a criação de situações teatrais relacionadas à realidade histórico–social dos participantes. As apresentações públicas de uma peça não constituem o objetivo último e nem o mais importante do trabalho aqui proposto. Sobre o valor de uma frase ou de um gesto não decide, portanto, a beleza, mas sim a possibilidade que o grupo adquire de pensar criticamente sobre o real e sobre a direção teatral quando os participantes enunciam a frase, executam o gesto e entram em ação.
B. Objetivos:
A concepção de direção que norteia o trabalho neste projeto distancia-se do papel legado ao diretor ao longo da tradição do teatro, absolutamente textocêntrica. Para esta concepção, o diretor funcionaria como mero representante das palavras do dramaturgo e sua criação consiste na fidelidade em representar o texto, como um advogado defende os autos.
Por outro lado, para este projeto o que caracteriza a dimensão teatral, ao contrário da literatura dramatúrgica, é a materialidade cênica. O diretor é considerado aqui como o criador responsável, através de uma relação de aproximação e de negação do texto, por transformar idéias e conceitos, mais do que apenas as palavras do dramaturgo, em ações, imagens, símbolos. É importante que os participantes experimentem o trabalho do diretor capaz de expressar o seu ponto de vista sobre determinado texto, dando concretude a este ponto de vista que não é, necessariamente, a visão do dramaturgo.
Para isso, é fundamental a prática de um processo que explicite possíveis definições para um conceito ou um ponto de vista da encenação e como realizá-lo durante determinado processo de criação.
Portanto, a presente atividade pretende estimular a prática e a reflexão dos participantes em relação ao seu próprio processo de criação, buscando a experimentação de diversos procedimentos empregados durante o processo de ensaio. Dessa forma, pretendemos realizar uma ação artístico-pedagógica que conscientizará e aprimorará a consciência crítica dos participantes em relação ao fazer teatral e à função do diretor teatral.
Considerando que o resultado do produto final depende intrinsecamente dos procedimentos adotados, pretendemos refletir, através da prática, sobre a atividade artística do diretor a partir de distintos procedimentos que integraram, ao longo da história do teatro e de suas diversas linguagens estéticas, variados processos de ensaio: análise de mesa, análise ativa, treinamento corporal, improvisação, jogo teatral, estudo do período histórico-social, estudo do tema da peça e sobre o dramaturgo, criação do personagem, etc.
C. Metodologia:
A metodologia aqui empregada procura permitir que todos os integrantes do grupo tenham a experiência de dirigir diversas cenas, a partir de diversos temas, refletindo antes e depois sobre tal prática.
Para a realização das atividades, os participantes são divididos em grupos, escolhendo-se, a cada encontro, um diretor por grupo. Esta metodologia garante com que todos os participantes revezem-se entre diretores, atores e público, efetuando o estudo sob três olhares distintos: a encenação sob o olhar do diretor, a encenação sob o olhar do ator e a encenação sob o olhar do público.
O objetivo é fazer com que os participantes reflitam e experimentem a elaboração e a prática de um projeto cênico abordando, a cada encontro, um tema fundamental à direção teatral. Dessa maneira, a atividade priorizará a transposição do material teatral em cena, através da materialização do ponto de vista do diretor responsável pelo exercício, distanciando-se da reprodução literal da proposta do dramaturgo. Mais do que isso, neste Núcleo o diretor teatral é visto como um dramaturgo, capaz de compor sentidos próprios através da articulação das diversas dramaturgias que compõem o fenômeno teatral.
Para isso, sugerimos que o ponto de partida metodológico seja o trabalho a partir de um texto ou mais textos historicamente clássicos e definidos independentemente da escolha dos participantes da turma. A opção pela escolha prévia dos textos, inserida em um projeto que busca a autonomia dos participantes, pode parecer paradoxal. No entanto, tal escolha propiciará exatamente a prática autônoma da direção teatral: o trabalho com um texto desconhecido, distante ou que mesmo não agrade ao diretor é capaz de exercitar a linguagem da encenação; cada participante terá que encontrar, no diálogo/embate com um material dramatúrgico que lhe é estranho, formas de inserir o seu próprio ponto de vista. O texto, nesta proposta, é assim também pretexto, obstáculo, estímulo para o exercício do que há de particular na atividade artística do diretor teatral.
A escolha de textos da saga de Tebas, de autoria de Sófocles e Ésquilo, parte da pesquisa desenvolvida pela II Trupe de Choque em seu projeto atual.Além disso, tal escolha foi pensada pela dificuldade que se apresenta ao diretor, interessado em elaborar o seu próprio conceito de encenação, no trabalho com um texto “clássico”. Não é preciso conhecer ou estudar teatro, não é preciso ter lido ou assistido Édipo ou Antígona para receber seus influxos – basta respirar o ar do tempo. Enfrentar, negar e superar todas as interpretações correntes sobre o texto clássico, em um verdadeiro embate com a tradição (no que Brecht chama de “retirar a camada de pó que cobre os clássicos”), é o desafio que permite ao diretor elaborar a linguagem cênica, buscando soluções próprias para a sua criação artística.
1) Formato dos encontros:
Nos primeiros encontros, além da apresentação do curso e a divisão dos grupos de trabalho, os participantes atuarão em exercícios, conduzidos pelo coordenador do Núcleo, capazes de iniciar a reflexão sobre temas introdutórios à direção teatral.
Nos encontros seguintes, os participantes terão uma hora de ensaio para preparar um exercício a partir do tema comum de experimentação do dia. Na segunda parte do encontro, os exercícios e processos de trabalho serão apresentados e discutidos. Por fim, haverá uma rápida introdução e debate sobre o tema de experimentação do próximo encontro, para que cada diretor possa, ao longo da semana, preparar o ensaio do seu grupo.
Ao final da trajetória, a partir dos exercícios praticados, a turma construirá um espetáculo/experimento comum, em que cada participante dirigirá uma cena ou fragmento, trabalhando também em outras áreas de criação (interpretação, cenografia, figurino, produção, dramaturgismo) nos outros momentos da peça.
2) Temas comuns de experimentação:
Os primeiros encontros foram conduzidos pelo coordenador do Núcleo, a fim de levantar possibilidades sobre a prática da direção. Além da experimentação prática, os participantes foram estimulados a problematizar a condução do coordenador, visando a uma reflexão sobre possibilidades de destruição, recriação e reinvenção das práticas apresentadas, em busca de uma autonomia do aluno-diretor.
Em um segundo momento, os participantes dirigiram pequenas experiências cênicas, que seriam sempre problematizadas coletivamente na última etapa dos encontros. O mote para estas pequenas cenas foi um trabalho com o corpo marionete, utilizado para uma experimentação prática da direção autocrata: o corpo do parceiro era, para cada participante, seu marionete. O conceito de direção tinha assim que ser expresso através do corpo do outro, ator marionete a se moldado e manipulado.
É importante ressaltar que o planejamento que se segue é apenas um esboço do percurso, e que estender-se-á durante o próximo módulo do Núcleo, podendo ser modificado a cada encontro a partir do diálogo com a turma.
ETAPA 1: CONDUÇÃO DO COORDENADOR A SER PROBLEMATIZADA
Encontro inicial: Apresentação
Encontro 1: O conceito – exercícios de aproximação
Encontro 2: O coro e o conceito de encenação
Encontros 3 e 4: Processo de ensaio: diversas possibilidades de aquecimento, improvisação, treinamento físico e vocal: o marionete
Encontro 5: O marionete
Encontro 6: O Marionete
Encontro 7: Estudo da Compra do Latão, de Bertolt Brecht
DIREÇÃO E DRAMATURGIA
Núcleo: DIREÇÃO E DRAMATURGIA
Platô: Brecht – Processo
Duração Encontro semanal de 3 horas durante 8 semanas
Vigência: 2010/2011
Carga Horária: 24 horas
Ementa: Investiga a estética do teatro dialético elaborada por Bertolt Brecht, suas referências históricas e suas possibilidades de recriação no contexto contemporâneo, a partir dos conceitos de dissolução do drama e de mimese.
Bibliografia: ADORNO, Theodor. Teoria Estética. Lisboa: Edições 70, 2004, capítulo “Coerência e sentido”, p. 157-186. ARISTÓTELES. Poética. São Paulo: Abril Cultural, 1974BRECHT, Bertolt. Fragmento Fatzer. São Paulo: Companhia das Letra, 2003 LILLO, George. O mercador de Londres. Tradução de Claudia Daniela. Inédito. SZONDI, Peter. Teoria do drama burguês. São Paulo: Cosac & Naify, 2007, capítulo “George Lillo: O mercador de Londres”, p. 26-85 ______________. Teoria do drama moderno. São Paulo: Cosac & Naify, 2005, capítulos “O drama” e “A crise do drama”, p. 29-53
Programa: Abordagem Teórica e Prática:1. Apresentação do Curso. Exercício prático: conceito de direção. 2. Exercícios práticos de direção. A poética Aristotélica e o conceito de mimese.3. Teoria do drama burguês 4. Teoria do drama moderno e crise do drama5. Fundamentos estéticos do movimento épico. Mimese na modernidade a partir de Theodor Adorno.6. Crise do épico na ultramodernidade: qual o seu teatro épico?7. Exercícios de direção e dramaturgia: o seu fragmento Fatzer.8. Exercícios de direção e dramaturgia: o seu fragmento Fatzer.
NÚCLEO: DIREÇÃO E DRAMATURGIA
Platô: Brecht – Experiência
Duração Encontro semanal de 3 horas durante 8 semanas
Vigência: 2010/2011
Carga Horária: 24 horas
Ementa: A partir da investigação de diversos processos de criação, cada grupo formado por integrantes de todos os núcleos, desenvolverá uma experiência cênica capaz de expressar o tema Eldorados/Eldohorrorados – 11 de setembro em diálogo com o teatro dialético de Brecht e com a realidade de cada um dos participantes.
Bibliografia: BRECHT, Bertolt. Escritos sobre teatro. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2008BENJAMIN, Walter. O que é teatro épico. In: Obras Escolhidas, vol. I. São Paulo: Brasiliense, 2000BUCCI, Eugênio. Informação e guerra a serviço do espetáculo. In: A imprensa e o Dever da Liberdade. São Paulo: Contexto, 2009DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. São Paulo: Contexto, 2009
Programa: Abordagem Teórico Prática:Montagem de um fragmento do Fatzer a partir de uma investigação do processo autocrático de criação, centrado no diretor.Montagem de um fragmento do Fatzer a partir de uma investigação do processo coletivo de criação, sem funções definidas.Montagem de um fragmento do Fatzer a partir de uma investigação do processo colaborativo de criação, baseado na contradição produtiva entre as funções, sem hierarquia definida. Escolha, por parte de cada grupo, do modo de produção (autocrata, coletivo ou colaborativo) a ser experimentado. Montagem de um fragmento do Fatzer a partir de leitura de um capítulo do “Sociedade do Espetáculo”, de Guy DebordDesenvolvimento da cena do Fatzer a partir da leitura de texto do filósofo Eugênio Bucci. Como transformar os conceitos teóricos em cena?Desenvolvimento da cena do Fatzer a partir de estímulos propostos por cada um dos participantes.Ensaio geral da experiência.Apresentação das experiências cênicas coletivas